diário

é foda


02.02.2017

Esse era um trecho de uma conversa com Marquinhos:

algumas coisas não têm fim, po, e quando eu não consigo me divertir com minha própria doença fica foda aguentar.

Essa merda me tornou carente, incoerente e paranóico, me dá vontade de evitar criar laços com as pessoas, mas eu percebi que não tava sendo engraçado e comi um pudim, o pudim só segurou as pontas momentaneamente, porque um pudim é paliativo como todos os remédios, e ele é puro açucar então o efeito dura ainda menos.

Eu odeio ser carente.

Na minha cabeça não adianta nada fazer exercício físico se a única pessoa com quem tu interage no dia é o John Cleese, rindo das entrevistas dele e tal. Algumas pessoas diriam: “Tá louco? That’s the dream”, eu queria me sentir assim.


10.02.2017

meus mundos saem de mim como aventura
e chegam ao outro mundo como um estímulo morto
nada importa Gibraltar e os desertos
as voltas na grande piscina do tempo

os mares e os grandes felinos que eu cativei
e que deles virei amigo


 11.02.2017

minha boca com uma mancha viva luminosa do sapho grená;
sinto meu corpo bem, mas a cabeça não está mais; não me curto mais.

eu estou cansado dos meus sentimentos, são algo que eu queria muito prontamente abrir mão.

Vou te dizer agora, de maneira simples, como uma flor morre, do amor dos animais, planos de deus que nunca vão se cumprir, o que o rancor varre quando cresce, e a frustração encontra às 15h30 no parque, o que faz a seca das lágrimas, como curar o concreto, dicas para manter um blog com 0 visitantes por ano, o Rio de Janeiro em Laranjeiras, todas aquelas pessoas tão inteligentes nos cafés não valem meu gato.l6 ele digitou esse 16, Luis entrou na minha vida e agora ele é uma parte enorme dela, e é um bicho de no máximo 40 centímetros, que doidice.2w3333l,k’1111111111111ui98=}

de novo


 16.02.2017

São 2:30 da manhã e o ventilador tá desligado, eu tava assistindo Pedro e Bianca, que infelizmente eu só descobri agora.

Depois desse primeiro episódio minha garganta apertou com saudade do projeto de Brasil progressista que a gente tava pondo pra frente, eu sou um maldito patriota. Não é como se meu time tivesse perdido um jogo, não é um jogo, são pessoas po, e elas tão infectadas com o racismo, e o ódio contra os outros da sua própria classe, e toda essa gente rica que não é mais capaz de fazer um exercício de alteridade, e ignorância, e arrogância, e uma vontade de poder que parece tão irracional quanto inconsequente, e que parece do começo do século passado.

Eu vejo os meus amigos e eu, todos nós sem esperança, virando as costas pras nossas lutas, porque tudo parece impossível de consertar. Tem dias que eu olho pra dentro de mim e me sinto mal por todo esse Chill & Netflix, e por ter me isolado lendo ficção científica quando as coisas ficaram estranhas demais pra aguentar. Às vezes eu sinto vontade de chorar por apenas rir do absurdo das coisas. Eu não me sinto aberto pra rir das coisas.

E não me leve a mal, toda essa melancolia de esquerda só está aqui porque ninguém nunca vai ler, é um tempo ruim.

Tá sendo difícil amar os tempos. tá sendo difícil amar o mundo. Eu sempre disse que as pessoas eram ruins, mas era tudo amargura pelo passado, eu nunca quis que as pessoas fossem ruins, e eu nunca quis acreditar nisso.

Esses tempos vieram provar que pode ser verdade?


18.02.2017

Esses dias eu tive a sensação de que toda minha vida foi fundada na esperança da enantiodromia. Eu tenho a certeza de que eu não vou me sentir da mesma forma todos os dias, isso sempre muda, mas a minha reação foi a mesma desde que eu me lembro, ansiedade, insegurança, medo.

A esperança da enantiodromia é certo dia acordar e ter uma personalidade completamente diferente, não como um processo lento, que é o que eu estou tentando pôr em prática, mas radicalmente diferente.

Das vezes que eu pensei que isso pudesse ter acontecido, ou as mudanças foram muito negativas, que me fizeram voltar atrás, como quando eu flertei com o niilismo e comecei a praticar um fascismo individual e interpessoal que eu pensei que me levaria à superação, mas me levou só à neurose e à instabilidade; ou as mudanças se mostraram apenas como fases, que enfraqueceram com o tempo e os velhos hábitos vieram à tona.

Agora eu vou ser alegre, pela primeira vez nesses 25 anos, eu sinto que a mudança está se concretizando para melhor, num processo lentíssimo, mas sempre progressivo. Eu comecei a perceber que a preguiça é um círculo vicioso, o sedentarismo te leva à depressão, e a depressão te causa indisposição, e a indisposição alimenta o sedentarismo. Exercícios são realmente uma Pedra Angular para conseguir melhorar enquanto ser humano. E os velhos hábitos vão sempre querer voltar, são 25 anos, mais de 9000 dias de uma lógica sentimental e corporal, mas é preciso resistir aos vícios dessa lógica, e criar uma nova.

Quer dizer, pensa bem… não, aziei, deixa essa pra próxima.


 04.03.2017

dois dias atrás eu perguntei pra um homem no ônibus: “o senhor tem as horas?”, ele sorriu educado e me disse as horas. e eu fiquei me perguntando se agora eu tinha as horas.

a esperança da enantiodromia continua.


02.04.2017

Vertendo a agulha no ar
Superior sublime uppercut
Uma agulha cor de safira
Frontal severa contra o externo
Peritos analisam o estrago
Sem considerar a mão
O vôo inevitável

A agulha faz um orifício mínimo em cada um dos órgãos vitais
e por cada furo uma gota de éter vaza a cada minuto

(11/09/2015)

vou esperar passar o menino
que leva meu lixo pro aterro
da ribeira no lombo
do caminhão de lixo

no lombo do caminhão de lixo
no lombo do caminhão de lixo

(01/07/2016)

uma linha azul-marinho
infinita quando turva longe
pela perspectiva de um ponto

ao longo dela nada (nada dói)
na grande piscina do tempo
arraia 5, raia 5, matadouro 5
maternidade 5, casa 5

um raio ou dois
brilhantes no fundo
da grande piscina do tempo
como o micélio crescem
feitos de luz

(09/02/2017)

a mesma longa linha agora negra
e ao redor, a velha penumbra
no escuro azul-petróleo

a luz de um poste vem da ladei-
ra e se torna vermelha no fundo
alerta vermelho sem som nos azu-
lejos, tubarão à espreita

mas é mao, o tubarão amigo
que guia as viagens de tarao

as águas estão revoltosas
e relâmpagos caem como o cão
tigres rugem sem parar, na ladei-
ra do poste a água corre rápido
e termina em uma cachoeira
no bueiro, que aventura

meus braços fazem zum
as pernas garantem a estabilidade
deslizo na água como um patinador (antes me arrastava)
não consigo respirar direito
estou cansado, e ninguém bota fé
na minha cara, mas na minha cabeça
eu estou nas olimpíadas, eu estou na marinha
ou em alto mar,

eu sou Corto Maltese, sempre sabendo o que fazer
sempre bolando um careta, com uma argola na orelha esquerda
uma roupa maneira, o amor chora minha partida,
eu apareço quase morto, eu sumo para outro lugar
zum

nada me atinge agora

(15/02/2017)


02.04.2017

Estou conseguindo acompanhar as coisas na faculdade, o período passa muito rápido, faltam apenas dois meses para o fim;

às vezes eu sinto, sinceramente, que a faculdade é uma farsa.

Hugo Pratt é mais um dos que eu admiro, que viveu em vez de fazer faculdade.