Não tinha aula na tarde de sexta, então dei uma cochilada depois de almoçar, e acordei no susto com o interfone. Era Seu Nilton me avisando que tinha chegado o pacote. Eu encho o saco dos porteiros todos os dias perguntando se chegou alguma coisa pra mim.

Coloquei o primeiro calção que eu encontrei no armário, e calhou de ser um que não cabia mais porque… na real… ganhei quando tinha uns 16 anos, então andei até a portaria com o quadril durão de tão apertado que tava, só por causa da correspondência.

andando tipo ministry of silly walks

Era um senhor envelope, pesava sem brincadeira nenhuma uns 800 gramas. parecia aqueles pacotes de maconha que a gente vê em apreensões, e tive a impressão de que tinha sido violado, tava meio rasgado dos lados… E meu endereço escrito com uma letra muito bonita. Qual será esse?

Era o Arco-íris da Gravidade, Thomas Pynchon.

Me iniciei nas obras dele recentemente, terminei Vício Inerente no máximo há um mês. E no final eu senti falta de ter documentado a leitura. Assisti o filme também, uns dois dias depois de terminar o livro, e isso é outra coisa que preciso comentar daqui a pouco.

E dessa vez adquiri um livro dele sem saber absolutamente nada sobre, e nas primeiras 2 páginas tive um vislumbre rápido de algo que talvez se confirme mais pra frente, é uma lapa de livro então não sei em quanto tempo pode ou não se confirmar. Existe algo na narrativa de Arco-íris da Gravidade que acontece muito pouco em Vício Inerente.

V.I. é um livro de leitura extremamente leve, ele se passa em Los Angeles, em 1971 por aí, na época em que o Charles Manson foi preso, e a ingenuidade em torno da contracultura estava se perdendo totalmente, é um livro que segue linear, com um protagonista que a gente conhece e com quem a gente se identifica, porque é abestado e hippongo, e se interessa demais por sexo toda hora, meio preguiçoso, e é passado a perna várias vezes – muito também como todo mundo da nossa geração – e então acontece: em alguns momentos pontuais a narrativa segue pra um comentário político sob camadas e mais camadas de panos, e o protagonista que era só um anti-herói ingênuo tem uns momentos de autoconsciência e até de presciência… e tu fica com aquela impressão de que tem alguma coisa acontecendo aqui, senhor Jones.

Algum comentário muito grande sobre como a gente chegou ao modelo neoliberal, de líderes ocultos, em que a gente vive hoje.

e não, não tem nada a ver com os illuminati, nem reptilianos, e sim com famílias de humanos mesmo, que por gerações e gerações detêm o controle da grana.

[Os comentários adiante têm algumas revelações fodidas do enredo, MUITO SPOILER]

Enquanto a gente segue o protagonista Doc Sportello por uma carrada de pistas aparentemente falsas e pontas soltas, algo vai se formando num segundo plano, ele vai sendo levado pra dentro de uma trama estranha, algo que mantem um dos seus amigos como um escravo.

E essa é a lombra: imagina aí uma sociedade secreta gerida por pessoas muito ricas, e que conta com o apoio irrestrito de uma parcela da classe média. Essa mesma sociedade secreta te vende a heroína que você quer pra se picar, o sexo que você quer nos puteiros porque a caretice não tá com nada, e quando sua vida tá sendo destruída pela droga, ela te vende a cura, ela conserta teus dentes podres da heroína, te interna numa clínica ~holística~, onde você vai fazer ioga e rezar os mantras om padme sei que lá… o sonho de qualquer alternativo, certo? Certo, mas tem algo com essa sociedade secreta, nesse Manassés-tropical-de-palmeiras-e-mansões, os seguranças são todos homens de terno, eles estão em todos os lugares, com as caras rígidas e pontos nos ouvidos, armados até os dentes, com aquela postura de “estou apenas cumprindo ordens”, te levando de um lado pro outro, sem abertura pra questionamentos, para que você consiga se libertar daquilo que essa mesma sociedade secreta te vendeu em primeiro lugar. Essa sociedade te pede pra agir como infiltrado em grupos considerados subversivos, essa sociedade quer entender o que eles pensam, quem eles são, como agem, sabe por quê?

Porque essa sociedade secreta quer vender a liberdade pra esses grupos, e quer vender a REAÇÃO a esses grupos TAMBÉM. Eles vendem as armas para os dois lados, os subversivos e os reacionários. E então observam de muito alto, como uma lupa em cima de formigas.

Eles observam tudo o que acontece, e manipulam, e fabricam, e vendem os desejos, e farão tudo o que for preciso para que eles continuem nas suas altíssimas posições.

Se isso não é o que a gente tá vivendo em uma época onde os gigantes do mercado financeiro se valem de lutas minoritárias e identitárias pra lucrar planetas de dinheiro, e taxam de malucos aqueles que percebem os jogos de poder, eu não sei.

Porque feminismo só é bom até o ponto em que exige a mudança de padrões de beleza e empoderamento. Preto só é bom sentadinho comportado no cinema vendo Pantera Negra, mas se tiver levante negro vai levar chumbo como sempre levou, como levou na Revolta de Watts (que inclusive o livro cita), como Marielle levou. A luta por moradia só se for Minha casa, Minha vida. Se invadir e ocupar área nobre da cidade leva chumbo e a casa pega fogo, como em Pinheirinho.

Porque na real, se por acaso a sua liberdade não estiver nos planos dos homens com as lupas, eles te apagam do mapa com um raio de sol passando pela lente.

[Fim das revelações do enredo]

Bem, o que eu percebi nas primeiras páginas do Arco-íris da Gravidade é que a atmosfera do livro te leva a pensar que a todo momento é essa narrativa profunda que tá rolando, essa mesma que acontece pontualmente em V.I.

É um narrador onisciente, que se esparrama por uma massa de migrantes, pessoas provavelmente sendo realocadas durante uma situação de guerra. E a todo instante fica aquela impressão de que algo está acontecendo aqui, senhor Jones.

WTF, Senhor Jones

Algo que ainda não tô nem perto de entender… quando estiver, eu volto e documento o progresso.

P.S.: Sobre o filme, sou fã do Paul Thomas Anderson como todo mundo, e eu odeio ter que dizer isso, mas o filme não faz jus ao livro e nem chega perto.

E pior… pra mim, é um dos mais fracos do P.T.A. até hoje. Triste, gosto muito de outros filmes dele. E PIOR AINDA, achei o Joaquin Phoenix péssimo nesse filme, cara. E é outro que eu admiro.

Então, na minha opinião, se vocês quiserem ter uma experiência marcante mesmo pro resto da vida, leiam o livro, esqueçam o filme. 

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Uma ideia sobre “O Arco-íris da Gravidade I (E alguns comentários sobre Vício Inerente)

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