Era noite de lua nova no Juçaralzinho; Com os meninos, Rian (14), Ruan (11), e Victor (10), procuramos no céu algum vestígio dela, mas não encontramos nada além de aglomerados leitosos de estrelas, que apesar de cobrir tudo no céu, não curavam o breu absoluto do chão; a gente andava com as lanternas dos nossos celulares.

Estava tudo especialmente quieto naquela noite, os meninos conversavam sobre coisas comuns como a Bola de Fogo, uma crença local de uma chama que crescia quanto mais você tivesse medo dela, e mamãe da lua, como eles se referiam à mãe-da-lua, ou urutau, uma ave noturna e rara, que para eles tinha um caráter quase místico.

“A boca dela vem daqui até aqui” – lembro vagamente de um dos três dizendo isso, e fazendo uma linha no seu rosto de uma orelha à outra.

Eles estavam me levando para onde havia um clarão e de onde vinha um som, música, eletricidade.

Era um evento da igreja adventista, que estava tentando fazer com que o máximo de pessoas se convertesse e se batizasse, ficamos nós quatro encostados na mesma árvore observando de longe.

“Aqueles ali tão se batizando só por causa das meninas” – “Eles vão embora amanhã” – “Passaram 15 dias aqui” – “Tavam bem procurando conseguir fiéis pra eles aqui dentro” – Foram coisas que ouvi dos meninos, eles definitivamente não eram ingênuos.

Horas antes, conheci o pai deles três, Neném – tomamos uma cerveja juntos -, e conversamos sobre toda a sorte de assuntos, por sorte, Neném era um dos pedreiros da região, e eu pedi a opinião dele sobre casas de taipa e casas de alvenaria, ele me respondeu com um argumento que me arrependo muito de não ter gravado, mas para neném a alvenaria era um progresso inevitável, “olha, lá em minas eu trabalhei numa casa toda de vidro…”, depois neném falou da esperança que ele tinha de que Rian fosse músico de seresta, falou das aulas de teclado que ele pagava para o guri, me mostrou as mãos e disse “olha isso, eu sempre mostro pra ele, e digo: ‘meu filho, é isso que você quer?’” – as mãos eram duras e cortadas de calos da roça e de construção.

Pedi aos meninos pra que a gente continuasse andando pelo povoado e nós fizemos o percurso inverso, a caminho do cemitério, quando alguém deles mencionou o helicóptero, não lembro como esse assunto surgiu, mas eu perguntei: “Que helicóptero?”, e os meninos responderam “Um tempão atrás, a polícia entrou aqui, tinha um helicóptero do GTA, e eles atiraram em todo mundo”

Minha primeira reação foi pensar que era algum tipo de brincadeira.

Eles continuaram, “É verdade, foi o ex-prefeito, ele queria essas terras aqui” – Minha memória conta mal essa história, ela lembra mal, lembro dela acontecendo de 50 formas diferentes:

“Na época que papai tava preso” – “Papai foi preso junto com Bertolina” –  “O helicóptero” – “Ex-prefeito” – “Terras” – “Búfalo” – São as palavras que me vêm. Perplexo e um pouco ansioso, eu me perguntei se o meu papel ali deveria realmente ser o de medir casas. E me pergunto isso até o presente momento, com todo o material sonoro que acumulei, as entrevistas, as lendas, histórias de encantados, dos conflitos de terra, relatos acerca do individualismo contra o coletivismo na comunidade, problemas com as construções do Incra, levantamentos, croquis. – até o momento não sei meu papel, não sei, sinceramente, se devo focar nas construções.

Quando notei, já era hora de dormir, Rian olhou para fora mais uma vez antes de fechar a porta da casa e disse “Boa noite, mundo”

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