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meu bisavô era mais preto que a noite 3

eu tenho a impressão de que o pai do pai do meu pai era mais preto que noite, e que de certa forma se podia ver mesmo a noite pela pele dele, como um mimetismo defensivo; um trem no escuro, fazendo barulho de trem, três tambores febris, fogo e fumaça; madrugada adentro;

a cidade proibida sobre os telhados

eu inventei um aparato pra resolver o meu passado e te tornar a minha mulher, o aparato também voa e memoriza sem rancor, eu inventei o aparato, construí e dormi sobre ele e tive um sonho bom, – quando acordei – não tinha mais aparato; cara, aí eu viajei o mundo procurando o aparato, eventualmente eu te encontrei, a gente tomou um café e eu continuei a minha busca, nada, cheguei cansado no meu quarto, uma volta ao mundo não é algo tão massa assim, principalmente quando a gente procura um aparato, deitei e ouvi um barulho oco – era o aparato, na brecha entre o colchão e a parede, puxei a cama pra ele cair, olhei debaixo – não tinha aparato. eu te liguei e disse: “acho que eu sei onde eu deixei o aparato,” – “onde?” – “mas não importa o aparato” – “do que você ‘tá falando?” – “nada, nada não”

espera

era o dia da chegada, todos ficavam apreensivos quando vinha um navio, acordei todo suado no meio da madrugada, o chão coberto de pó de borracha, eu escrevi umas mil vezes tudo aquilo que eu queria te dizer – do nada um besouro também, como diabos ele entrou aqui? – escrevi pra no final não dizer e sim entregar, uma carta não se diz, o navio fantasma chegaria de manhã cedo – eu tinha uma tia meio doida que comparava o nascer do sol com uma flor explodindo, eu rio disso, mas no fundo eu acho bonito – a noite ‘tava bem clara, eu preciso dormir, dei uma última olhada na cidade fantasma – nenhuma luz sequer acesa, trepei na janela com medo e as mãos suadas da vertigem, bati a cabeça no teto – às vezes o besouro dá uns vôos pequenos e cai de barriga pra cima, voa de novo e bate a cara nos papéis do meu quarto, esse besouro é como eu, rio dele – preciso muito mesmo dormir, como vou fazer amanhã? – andei pra lá e pra cá, desabei na cama – deixei a janela aberta pra que você desenhasse fantasmas nas minhas costas – sonho que estou nadando, aliás, sonhei que eu me preparava pra saltar e que depois do salto eu ficava preso no ar antes de tocar a água, sabe? com a cabecinha baixa, os braços fazendo a seta, o corpo todo esticado, eu era criança no sonho – e o besouro faz algum barulho, meu sono é leve, ponho ele numa folha de papel e levo até a janela, e lá uma flor explodindo – desci, checando mentalmente se eu ‘tava trazendo tudo, cheguei no cais e esperei te ver, com tantas palavras ali, meti a mão no bolso e achei minha borracha, tinha o cheiro da minha infância.

Quando você escorrega lentamente para um sonho, seus pensamentos se embaralham e o barulho distante da televisão soa como uma música de ninar. Esse é o Estado de Vigília.