a mesma longa linha agora negra
e ao redor, a velha penumbra
no escuro azul-petróleo

a luz de um poste vem da ladei-
ra e se torna vermelha no fundo
alerta vermelho sem som nos azu-
lejos, tubarão à espreita

mas é mao, o tubarão amigo
que guia as viagens de tarao

as águas estão revoltosas
e relâmpagos caem como o cão
tigres rugem sem parar, na ladei-
ra do poste a água corre rápido
e termina em uma cachoeira
no bueiro, que aventura

meus braços fazem zum
as pernas garantem a estabilidade
deslizo na água como um patinador (antes me arrastava)
não consigo respirar direito
estou cansado, e ninguém bota fé
na minha cara, mas na minha cabeça
eu estou nas olimpíadas, eu estou na marinha
ou em alto mar,

eu sou Corto Maltese, sempre sabendo o que fazer
sempre bolando um careta, com uma argola na orelha esquerda
uma roupa maneira, as garotas choram suas calcinhas por mim,
eu apareço quase morto, eu sumo para outro lugar
zum

nada me atinge agora

uma linha azul-marinho
infinita quando turva longe
pela perspectiva de um ponto

ao longo dela nada (nada dói)
na grande piscina do tempo
arraia 5, raia 5, matadouro 5
maternidade 5, casa 5

um raio ou dois
brilhantes no fundo
da grande piscina do tempo
como o micélio crescem
feitos de luz

vou esperar passar o menino
que leva meu lixo pro aterro
da ribeira no lombo
do caminhão de lixo

no lombo do caminhão de lixo
no lombo do caminhão de lixo

Vertendo a agulha no ar
Superior sublime uppercut
Uma agulha cor de safira
Frontal severa contra o externo
Peritos analisam o estrago
Sem considerar a mão
O vôo inevitável

A agulha faz um orifício mínimo em cada um dos órgãos vitais
e por cada furo uma gota de éter vaza a cada minuto

meu bisavô era mais preto que a noite 3

eu tenho a impressão de que o pai do pai do meu pai era mais preto que noite, e que de certa forma se podia ver mesmo a noite pela pele dele, como um mimetismo defensivo; um trem no escuro, fazendo barulho de trem, três tambores febris, fogo e fumaça; madrugada adentro;

a cidade proibida sobre os telhados

eu inventei um aparato pra resolver o meu passado e te tornar a minha mulher, o aparato também voa e memoriza sem rancor, eu inventei o aparato, construí e dormi sobre ele e tive um sonho bom, – quando acordei – não tinha mais aparato; cara, aí eu viajei o mundo procurando o aparato, eventualmente eu te encontrei, a gente tomou um café e eu continuei a minha busca, nada, cheguei cansado no meu quarto, uma volta ao mundo não é algo tão massa assim, principalmente quando a gente procura um aparato, deitei e ouvi um barulho oco – era o aparato, na brecha entre o colchão e a parede, puxei a cama pra ele cair, olhei debaixo – não tinha aparato. eu te liguei e disse: “acho que eu sei onde eu deixei o aparato,” – “onde?” – “mas não importa o aparato” – “do que você ‘tá falando?” – “nada, nada não”

espera

era o dia da chegada, todos ficavam apreensivos quando vinha um navio, acordei todo suado no meio da madrugada, o chão coberto de pó de borracha, eu escrevi umas mil vezes tudo aquilo que eu queria te dizer – do nada um besouro também, como diabos ele entrou aqui? – escrevi pra no final não dizer e sim entregar, uma carta não se diz, o navio fantasma chegaria de manhã cedo – eu tinha uma tia meio doida que comparava o nascer do sol com uma flor explodindo, eu rio disso, mas no fundo eu acho bonito – a noite ‘tava bem clara, eu preciso dormir, dei uma última olhada na cidade fantasma – nenhuma luz sequer acesa, trepei na janela com medo e as mãos suadas da vertigem, bati a cabeça no teto – às vezes o besouro dá uns vôos pequenos e cai de barriga pra cima, voa de novo e bate a cara nos papéis do meu quarto, esse besouro é como eu, rio dele – preciso muito mesmo dormir, como vou fazer amanhã? – andei pra lá e pra cá, desabei na cama – deixei a janela aberta pra que você desenhasse fantasmas nas minhas costas – sonho que estou nadando, aliás, sonhei que eu me preparava pra saltar e que depois do salto eu ficava preso no ar antes de tocar a água, sabe? com a cabecinha baixa, os braços fazendo a seta, o corpo todo esticado, eu era criança no sonho – e o besouro faz algum barulho, meu sono é leve, ponho ele numa folha de papel e levo até a janela, e lá uma flor explodindo – desci, checando mentalmente se eu ‘tava trazendo tudo, cheguei no cais e esperei te ver, com tantas palavras ali, meti a mão no bolso e achei minha borracha, tinha o cheiro da minha infância.